Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

Fabulando - A Raposa e o Lobo

Bicho matreiro, a raposa está omnipresente em muitas fábulas e lendas personificando a astúcia, a manha e as artimanhas, de tal modo que é costume dizer-se "a raposa tem sete manhas..." e não digo o resto para não ferir susceptibilidades.
Pois esta lenda é verdadeira e tem graça que, quando a ouvia contada por meu Pai, embevecido, construía mentalmente o cenário em locais bem conhecidos: Uma casa isolada, no Vale da Aveleira, onde moravam dois anciãos, irmãos, que não eram assim tão velhos mas, aos meus pequenitos olhos, as pessoas adultas daquela terra ostentavam uma precoce velhice que não correspondia de modo algum à idade que detinham, e uma poça, represa feita de terra e pedras, no sítio do Castanheiro do Caminho, onde no verão, durante a noite, se represava a água que no dia seguinte iria refrescar as culturas de milho.
Aconteceu este episódio no tempo em que os animais falavam e estabeleciam parcerias para fazer face ás agruras da vida.
Então, numa dessas parcerias formada pela raposa e pelo lobo, ambos decidem assaltar a casa dos dois irmãos, enquanto os seus moradores estavam a dormir descansados e roubaram uma magnífica bola de unto. Pelo caminho, de regresso às respectivas tocas, iam-se revezando no transporte do espólio que tinham roubado mas a raposa ia pensando na forma de enganar o lobo para ficar sozinha com o produto do roubo.
Ao passarem junto da poça cheia de água a raposa viu uma bola sob a água da poça,  que se assemelhava à bola de unto que então transportava e mais não era do que a lua reflectida na límpida água do charco, cuja imagem lhe deu a ideia de que precisava para ludibriar o palerma do lobo.
Rapidamente escondeu o unto numa moita de carqueja e disse para o lobo: Oh! o unto caíu à água, e agora? - Hum... agora vai ser difícil tirá-lo... está muito fundo... Ah... mas não é impossível, ripostou a raposa, vamos beber toda a água do charco até o podermos sacar... E começou a beber. De repente, aproveitando a distracção do lobo que continuava a beber como um desalmado, salpicou as orelhas com água e disse para o lobo: Ai... já bebi tanto que já me sai a água pelas orelhas... O palerma do lobo continuou sofregamente a beber, a beber, a beber até que o bandulho explodiu e ali ficou com a língua de fora e os olhos esbugalhados.
E a ladina da raposa foi pegar novamente o precioso unto e levou-o para o seu covil, lá para as bandas da fraga...


PS: A bola de unto era feita com o revestimento da cavidade abdominal dos porcos e, depois de devidamente acondicionado e salgado formava uma bola de gordura que se utilizava para dar sustância ao caldo, aos grelos ou uma simples água de unto, uma espécie de sopa muito utilizada no Inverno para aquecer o estômago.  O queijo, utilizado também para ilustrar esta fábula, era desconhecido por aquelas bandas...
Sinto-me: rejuvenescido :)
Publicado por Eira-Velha às 23:05
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4 comentários:
De Ventor a 14 de Janeiro de 2008 às 23:50
Pois era! A famosa água de unto!
às vezes até cheirava a ranço fora da porta de quem utilizava essa espécie de sopa - á água de unto!
De Jofre Alves a 15 de Janeiro de 2008 às 17:06
Ainda me lembro, vagamente, da minha santa avó fazer a bola de unto, e da mesma ser utilizada na cozinha, naqueles tempos de luta pela sobrevivência, onde o acumular da experiência tradicional era fundamental. Um abraço.
De cindapereira a 16 de Janeiro de 2008 às 16:05
Gostei de ler os seus textos. já sabia que a raposa era matreira!!! Quanto á bola de unto, sei que aqui no norte usavam muito esse processo para dar mais substância às sopas, eu moro no Alto Minho. Hei-de vir aqui mais vezes. Cumprimentos cinda
De vilma a 20 de Janeiro de 2011 às 17:04
Eu entrei neste site e vi esta estória e lembrei como meu paizinho e maezinha me contavam muitas estórias do lobo sempre enganado pela raposa e essa era uma delas...que saudade...parabéns

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