Quarta-feira, 3 de Março de 2004

A Criação

Há uma lenda ancestral que reza mais ou menos assim:

Antigamente, quando os mais velhos, doentes e estropiados, já não podiam trabalhar e garantir a sua subsistência, era costume os filhos levarem-nos para o monte onde acabariam por morrer à míngua de recursos, longe dos olhos das outras pessoas.

Assim sucedeu com um idoso a quem o filho carregou às costas e levou ao monte para ali morrer.

Chegados ao local apropriado, o filho pousou o velho no chão e entregou-lhe uma manta para se poder agasalhar do frio e da intempérie.

Já ia a virar costas ao velho quando este lhe disse para esperar um momento.

Então o velho pegou a manta, rasgou-a ao meio e deu metade ao filho dizendo, com a voz embargada pela emoção: — Meu filho, guarda essa metade para quando chegar a tua vez...

O filho reflectiu por uns instantes naquelas palavras e decidiu carregar o pai novamente às costas, regressando os dois a casa.

Lembrei-me desta história ao evocar Vitorino Nemésio, numa das suas alocuções no programa televisivo "Se bem me lembro...", já lá vão muitos anos (até parece que sou um dinossauro), a propósito dos caminhos que levava a educação, também designada popularmente por "criação".

Dizia o professor, a concluir o seu raciocínio, que não seria de estranhar se se voltasse a retomar o velho costume de levar os velhos ao monte para ali morrerem...

Se pensarmos bem, tal premonição já está a ocorrer. Não levamos os velhos ao monte mas acabamos por lhes ditar um destino semelhante ao "despejá-los" em lares, muitas vezes clandestinos e sem condições físicas nem humanas para que ali possam dispor da qualidade de vida que os últimos dias de existência requerem.

É verdade que é uma necessidade nos tempos que decorrem. As habitações exíguas, o emprego, as condições económicas e a própria criação impelem-nos a adoptar procedimentos cada vez mais comuns mas agimos assim, de certa forma, inconscientemente, não cuidando de saber que qualidade de vida esperamos ter quando chegar a nossa vez.

Ainda há dias ouvi Dulce Pontes dizer que devemos olhar mais ao "ser" do que ao "parecer". Isto é tanto mais verdadeiro quanto mais nos apercebemos da hipocrisia, da mentira, da falsidade e da mesquinhez que grassa à nossa volta e nos afecta, e nos contamina, e nos impele a querer parecer mais do que a ser... A essência é ofuscada pela aparência mas, na realidade, somos tão insignificantes... no fundo, todos acabamos por ficar reduzidos a pó, nada mais que isso.

Mas a consciência do ser adquire-se através da criação. E se esta for desenvolvida num meio de aparência e de superficialidade não restam dúvidas de que a caminhada final será, necessariamente, em direcção ao monte...

Publicado por Eira-Velha às 18:52
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1 comentário:
De Ventor a 26 de Abril de 2007 às 10:12
É verdade! Toda a engrenagem que a sociedade montou, leva-nos a pensar que vivemos numa mentira permanente sempre sob a bandeira da aparência. Por isso, eu que também tenho reflectido nessas histórias dos lares para «velhos», não me esqueço dessa história que contas e que eu ouvi em pequeno quando me diziam que esse método era utilizado pelas gentes de Cabreiro. Mais tarde vi um filme feito pelos américas que me contavam a mesma história passada no seio dos povos índios e assim por diante. Mas eu não sei se essa história da montanha, do homem e da manta, não seria boa, se no cimo de um belo monte eu pudesse morrer descansado a ver as minhas montanhas lindas todas floriddas. Mas, se calhar agora já não há lobos para limpar a carcaça na sua última caminhada. Como tu dizes e eu acredito, estarão mesmo lindas, aquelas que resistiram aos fogos infernais.
Boas caminhadas por entre as urzes dos montes que eu tanto gosto e, por isso, desafio todos, de um modo indirecto, a que não se esqueçam que as urzes dos montes também embelezam o nosso mundo.

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