Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2004

D. Caio

Era uma data memorável, aquela em que se encerrava um ciclo de aprendizagem mínima e se iniciava um outro, que mais não era do que continuar o primeiro, mas noutra dimensão, a dimensão do trabalho árduo e escalvado do campo.

Pela noite dentro, o sono não pegava, o nervosismo fazia contracções no abdómen e gerava um constante rebolar no fofo xaragão cheio de palha de centeio.

Ainda o dia era uma miragem e já o reboliço animava a casa. A lareira crepitava, convidando para um parco pequeno almoço, se assim se podia chamar a fumegante água de unto que lubrificava e aconchegava o estômago, redobravam-se os cuidados de higiene, esfregando bem aquelas zonas mais recônditas dos pavilhões auriculares, vestia-se a melhor fatiota e toca a andar que a caminhada era longa.

 

Pelo caminho ia relembrando a matéria, cada parágrafo do texto já predefinido – escolhe o D. Caio que é fácil, vais ver que é fácil – e o D. Caio, o famoso "mata-sete", tinha sido lido e relido até à exaustão. Conhecia a história de fio a pavio, os pontos, as vírgulas, os parágrafos, as orações, os verbos... o cavalo à desfilada "eu caio, eu caio" e o pobre alfaiate, tão aflito como eu, agarrado às crinas do fogoso solípede. Mas havia mais coisas para rebuscar nos arquivos da memória: a Geografia, com os sistemas montanhosos e as serras, do Minho ao Algarve, Peneda, Soajo, Gerês, Cabreira...; os rios e afluentes, o rio Minho nasce nos montes Cantábricos em Espanha, passa por Melgaço, Monção e Valença e vai desaguar junto de Caminha, tem como afluente, da margem esquerda, o Coura...; a História, com o nome e cognome dos reis, as grandes batalhas e tratados de paz, os descobrimentos, a época negra dos "Filipes", a restauração, as invasões francesas, a conturbada época do constitucionalismo, o regicídio e, finalmente, a implantação da república, da qual despontou aquele "grande senhor" que havia de "salvar" a Pátria do caos económico e social em que se encontrava e lançá-la num longo período de obscurantismo triste e bacoco...; a Matemática, uma mão cheia de números e fórmulas e... reguadas.

 

Após percorrer escassos quatro quilómetros, por um pedregoso, escuro e sinuoso caminho, surgia a primeira grande novidade, o carro de praça, que em menos de uma hora nos levaria à Vila, aquela urbe gigante e desconhecida que nos iria fazer abrir a boca de espanto com as suas amplas e longas ruas pejadas de gente, o casario enorme, com portas e janelas envidraçadas e o comboio, aquele gigante de aço que resfolegava e fumegava como um enorme dragão.

Num ápice, estávamos sentados nas carteiras que já nos eram familiares, umas folhas de papel almaço à frente, com a margem esquerda de três centímetros rigorosamente marcada e vincada a régua e esquadro, a caneta de tinta permanente devidamente preparada de véspera, não fosse o diabo tecêlas e nos borrasse a folha de prova, e um nó no estômago que nunca mais se desatava. Mas as esperadas dificuldades foram sendo superadas, afinal, nem era assim tão difícil. Só faltava agora superar a prova oral, mas essa, era certo que ia ser "canja". Era só o professor deixar escolher a lição que o resto já eu sabia...

E assim foi. Sentado em frente do severo júri de exames, um trio de professores de alto quilate que ali se encontrava a postos para nos fazer vomitar tudo quanto sabíamos, surgiu a fórmula mágica que eu ansiosamente esperava – escolhe lá a lição –e eu, sem hesitar um segundo, abri o livro na página do D. Caio e li, como se estivesse no recreio com os colegas de brincadeira, até que me foi ordenado que parasse: "Era uma vez um alfaiate que estava à porta da rua... e de uma vez matou sete moscas...".

Então começa o massacre, com perguntas e mais perguntas, às quais eu respondia na ponta da língua e, já quase no final, a pergunta fatal: "Coloca a frase ... no futuro". A resposta saiu célere da minha boca "estarei" mas a reacção do membro do júri colocado ao centro e que parecia ser o mais importante fez tocar a rebate todos os sinos do meu cérebro. Aflito, tentava em vão, conjugar o verbo em todos os tempos, lia e relia a frase "estarei, estarei" e não havia forma de se fazer luz na escuridão em que a minha cabeça se encontrava.

Olhei fixamente o professor que, severo e impiedoso, aguardava a minha resposta definitiva, obrigando-me a desviar o olhar envergonhado. Inquieto, aflito, escarlate e a transpirar por todos os poros, já só imaginava o que seria quando toda a gente soubesse que tinha levado a "raposa", até que ousei, mais uma vez, enfrentar as medonhas "fuças" do júri. E, na expressão calma e semi-divertida de um dos professores que ladeavam o meu algoz, vislumbrei o suave movimento labial que me havia de salvar: "estará!", exclamei eu como se de repente todo o peso do mundo saísse de cima de mim.

Coimbra, 13 de Outubro 2001

Publicado por Eira-Velha às 22:34
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