Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2006

A Passagem

          — Vamos, está na hora!

         Havia algum tempo que ela lá estava. Não entrou pela porta nem pela janela, simplesmente surgiu ali, aos pés da cama, e não cessava de me observar.

         Tentei ignorá-la mas aquela sensação dolorosa, aquela constrição no peito, aquele ardor e ansiedade causavam-me um intenso desassossego e era inevitável deixar de olhar para o seu enigmático sorriso.

         Senti ainda um último bater do coração, um último estertor dos pulmões, um último estrebuchar do corpo e finalmente o silêncio, um silêncio absoluto, glacial e arrepiante.

         Desenvencilhei-me da carga de ossos e músculos que me davam forma e elevei-me facilmente no exíguo espaço do meu quarto. Pairei no ar e virei-me para o lugar de onde saíra. O meu corpo permanecia tal qual o tinha deixado e observei-me algo surpreendido. Estava muito mais velho do que supunha, mais gordo do que pensava, mais feio do que imaginava e não pude deixar de me divertir com a gaifona estampada no meu rosto, misto de dor, de susto e de lenitivo.

         Nada fazia prever aquele desfecho. Tinha feito análises clínicas recentemente e estava quase tudo bem, excepção feita ao colesterol que acusava índices um pouco elevados, coisa que o zarator e algum rigor na alimentação não remediassem. Foi tudo culpa daquele microscópico grão de gordura que se desprendeu da veia junto ao tornozelo e iniciou uma caminhada de dias em direcção ao coração. Primeiro andou à deriva na barriga da perna, ainda se acoitou umas horas numa variz na coxa mas voltou a retomar a corrente que engrossava à medida que se aproximava do vigoroso músculo cardíaco. Entrou na aurícula esquerda pela veia cava inferior, passou pela válvula tricúspide para o ventrículo esquerdo e foi impelido com força para a artéria pulmonar, ultrapassou a custo os alvéolos e regressou ao coração pelas veias pulmonares. Impelido para a aurícula direita, um impulso vigoroso do músculo cardíaco obrigou-o a sair pela artéria aorta mas logo no início do enorme vaso sanguíneo inflectiu a marcha e entrou por um finíssimo tubo no pericárdio que se ramificava para outros ainda mais finos e a determinada altura imobilizou-se por causa do diminuto diâmetro do ramal coronário por onde tinha entrado. Foi nessa altura que senti aquelas sensações estranhas.

          —Vamos! Não há tempo a perder — insistiu ela.

         Voltei-me calmamente e ia dizer-lhe que precisava resolver algumas coisas importantes mas já ela se encontrava de costas para mim e se dirigia para uma porta na parede, até ali inexistente.

         Segui automaticamente atrás dela sem esboçar a mínima resistência. O caminho era escuro mas os meus passos eram seguros, como se já por ali tivesse andado muitas vezes. Não se ouvia qualquer ruído, não soprava uma ínfima brisa de ar, apenas as nossas sombras se deslocavam agilmente ao longo daquela interminável galeria.

         Subitamente o caminho desapareceu à beira de um precipício medonho, embora a minha companheira continuasse a caminhar sem se importar com o que os meus olhos tinham acabado de descobrir. A visão das profundezas era simplesmente terrífica: no leito do vale corria um rio de borbulhante e incandescente lava por onde nadavam as mais diversas e horrendas criaturas que se possa imaginar. Hesitei, quis voltar para trás mas um muro intransponível cortava-me a passagem.

          —Continua, não pares — exortou-me ela.

         Levantei o pé, lancei a perna para a frente e fechei os olhos, certo de que me iria precipitar no abismo mas enganei-me. O meu pé assentou no chão firme, dei outro passo, e outro, e outro. Abri os olhos e fiquei estupefacto com o que estava a acontecer. Conforme caminhava, uma estreita ponte ia ganhando forma sob os meus pés, segura, sem a mínima oscilação ou vibração. À minha frente, como que suspensa da atmosfera, lá ia ela a guiar-me em direcção a um objectivo agora bem definido, uma luz no fim do imenso túnel que se seguia ao abismo e que espalhava os seus reflexos prateados pelas paredes da galeria.

         A atracção era agora fascinante, a ânsia de chegar irresistível.

         Chegamos finalmente.

         A paisagem que se estendia ante os meus etéreos olhos não se pode descrever. De repente tudo se transformou e tornou familiar. Ali estavam eles, os meus antepassados, os amigos de infância, o cão e o gato, as galinhas e os carneiros, tudo que preenchia o meu baú das recordações.

         Voltei-me.

         À entrada do túnel lá estava ela imóvel, o negro manto agitado pela brisa, o esquelético rosto que apenas se podia adivinhar na escuridão do negro turbante e a enorme e reluzente gadanha pronta a ceifar outras vidas, a malograr outros projectos, a reduzir a cinza outras ambições.

Publicado por Eira-Velha às 20:14
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