Sábado, 31 de Janeiro de 2004

A Banda

Foi designada "Banda de Música de Santa Cecília" mas ficou conhecida em todo o Alto Minho pela "Música de Cavenca".

Foi formada por um homem genial, que o acaso, ou talvez não, levou até àquele lugar do "Fim do Mundo", o Padre Bernardino.

O Padre Bernardino era um refugiado galego que nunca se chegou a saber ao certo por que razão ali procurou guarida e ali viveu durante muitos anos até que desapareceu do mesmo modo como tinha aparecido. Constou-se que, durante uma das escassas visitas que fez à terra natal, teria sido assassinado...

Porém, enquanto permaneceu em Cavenca, exerceu um apostolado exemplar e conquistou o carinho daquela humilde gente, mas onde mais se destacou foi na obra social que desenvolveu, operando autênticos milagres com os parcos recursos de que podia dispor.

O expoente máximo dessa obra social foi a criação da Banda de Música, que espalhou os seus estridentes sons por todo o Alto Minho e até no Sul da Galiza.

Era um grupo de artistas peculiar, formado de audaciosos trabalhadores rurais, que alternavam as artes de carpintaria, pedreiros, serradores, tamanqueiros e outros ofícios, com o rude e esforçado trabalho do campo.

A maioria não sabia ler nem escrever e, de música, "tinham" apenas a que lhes vinha do coração. Para acompanhar o ritmo, os andamentos e as variações das pautas, eram "tudo olhos" para o maestro, que os conduzia um a um com uma perícia ímpar e ouvido atento a tudo o que soava em redor.

Percorriam, a pé, enormes distâncias, fardados "a rigor", de tamancos ferrados nos pés e algumas palhas de feno teimosamente agarradas à farpela, com os artefactos às costas, para em dias de festa encantarem as populações, que aplaudiam e dançavam ao som dos números musicais que a banda lhes dedicava. E quando desfilavam pelas ruas das vilas e aldeias, com garbo e altivez, era quase tanto o barulho dos tamancos nas pedras da calçada como o produzido pelos reluzentes e sonoros instrumentos musicais.

Já toda a gente conhecia o escasso repertório, que era preciso repetir vezes sem conta, e cantarolava as suas melodias. Mas era um gozo extraordinário ouvir a "Música" e uma Festa sem ela mais parecia um velório.

A Música perdurou por muito tempo, mesmo depois do misterioso desaparecimento do Padre Bernardino, e aquela arte, ao tempo exclusiva dos homens, passou de pais para filhos, até que a guerra e o forte fluxo migratório para o estrangeiro fizeram minguar drasticamente os recursos humanos, a ponto de ficar reduzida a pouco mais de uma dúzia de elementos.

Contudo, o mesmo mal afectou a Banda Popular de Riba de Mouro, juntaram-se as duas e, durante mais algum tempo, continuaram a abrilhantar as festas e romarias populares.

Foi há cerca de sete ou oito anos que se extinguiu definitivamente, não tanto por falta de recursos, quer materiais, quer humanos, que esses voltaram a incrementar-se nos últimos anos, mas por falta de liderança e de sensibilidade para gerir uma agremiação que poderia ser um polo dinamizador de cultura e de ocupação de tempos livres para os jovens, numa terra com potencial bastante mas sem capacidade para aproveitá-lo.

E é pena!

Coimbra, 21 de Janeiro de 2002

 

Publicado por Eira-Velha às 21:35
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4 comentários:
De sam a 21 de Fevereiro de 2006 às 17:05
sem dúvida uma boa historia, mas existem muitas mais que poderia publicar.
umas fotografis iriam animar o blog, e cavenca tem sitios que merecem ser vistos, é uma pena que que estjam tão longe e tão escondidos.

continue, esta a fazer um optimo trabalho
De sam a 21 de Fevereiro de 2006 às 17:05
sem dúvida uma boa historia, mas existem muitas mais que poderia publicar.
umas fotografis iriam animar o blog, e cavenca tem sitios que merecem ser vistos, é uma pena que que estjam tão longe e tão escondidos.

continue, esta a fazer um optimo trabalho
De sam a 21 de Fevereiro de 2006 às 17:05
sem dúvida uma boa historia, mas existem muitas mais que poderia publicar.
umas fotografis iriam animar o blog, e cavenca tem sitios que merecem ser vistos, é uma pena que que estjam tão longe e tão escondidos.

continue, esta a fazer um optimo travalho
De Ivete a 24 de Julho de 2007 às 21:25
Por muito tempo fui desafiada a fazer um trabalho como este.Claro que muito mais humilde, mas levando as pessoas a cantarem.É uma paixão antiga que tenho e por muito tempo tive forças de levá-lo adiante. Agora desisti, mas confesso que a percepção da necessidade da liderança nesse sentido, continua a chamar-me... Quem sabe ainda volto a ele...Um abraço!

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