Sábado, 31 de Janeiro de 2004

Arrepios à lareira

A Rosalina1 era uma rapariga jovem e robusta que, como qualquer moça da sua idade e na pujança da vida, gostava de se divertir e de namorar.

Por isso, não desperdiçava os escassos eventos que ocorriam sazonalmente, as festas feiras e romarias nos longos e quentes dias de verão, os serões nas longas e frias noites de inverno.

Todos os rapazes a cortejavam e lhe arrastavam a asa, enquanto as outras raparigas se roíam de inveja.

Naquela noite gélida de inverno, realizava-se na sua aldeia, em S. Miguel, mais uma das célebres fiadas. Era um dos serões típicos da região, em que se reuniam todas as raparigas do lugar num espaço o mais amplo possível, acompanhadas pelas mães, pois claro, e ao qual assistiam, convidados ou não, os rapazes das redondezas. E enquanto as raparigas fiavam e namoriscavam, bem à vista de todo o mundo, os rapazes exibiam-se cantando ao desafio, acompanhados pelo estridente som da concertina.

O serão decorria de forma entusiástica e era visível a animação e a alegria de todos os jovens ali presentes, destacando-se a Rosalina, como de costume, pelo brilho que emanava dos seus fogosos olhos e pela lascívia que despertava o seu fabuloso busto, que parecia querer romper as costuras do colorido corpete que o sustentava.

Subitamente, chegou do exterior o som de um canto argentino e arrebatador, que fez silenciar todos os presentes:

Menina de entre as meninas

Eu não sei qual delas é.

Mandou-me aqui não sei quem

Para ir ali, não sei aonde é.

No meio do silêncio geral, as raparigas entreolharam-se intrigadas e curiosas. Então, a Rosalina, desembaraçada como sempre e antecipando-se às demais, levantou-se e exclamou: sou eu! Dito isto, saiu apressadamente do amplo salão e perdeu-se na escuridão da negra noite.

Nunca mais foi vista a Rosalina!

Quando toda a gente se apercebeu de que a Rosalina não regressava, saíram à sua procura com fachos e lanternas, procurando em vão por becos e veredas.

Houve quem ouvisse gritos de pedido de socorro pelo monte acima, a caminho da Pegada. Seguiram no encalço daquela pista, pela negra escuridão, mas quando chegaram à Pegada ouviram gritos em Salgueirão, em Salgueirão ouviram os mesmos gritos para lá de Fonte Boa.

Desistiram. No dia seguinte alguém seguiu a pista até Santo António de Val de Poldros, onde se diz terem visto sangue junto de uma pequena e isolada casa da pacata veranda.

Há quem afirme que, ainda hoje, em determinada noite de inverno, o espírito da Rosalina percorre aquele itinerário, debalde clamando por socorro, e o seu lamento só desaparece junto da velha casa que nunca mais foi habitada.

Coimbra, 08 de Novembro de 2001



1 O nome é fictício. Na versão que eu ouvia em pequenino, a protagonista desta história não tinha nome próprio.

Publicado por Eira-Velha às 10:23
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