Segunda-feira, 16 de Abril de 2007

Personagens da Minha Terra - II

O Ti António Freixinho

 

Era um particular amigo de meu Pai e nosso vizinho.

Conheci-o já com idade bastante avançada e recordo especialmente o seu fiel amigo “Jau” que morreu de velhice debaixo do velho loureiro que lhe servia de abrigo.

Possuía um património extenso e valiosíssimo mas não tinha condições físicas para o governar e, por isso, tinha que confiar a exploração dos seus bens a terceiros, contentando-se com as “meias”, que nem sempre o seriam, da produção anual das suas propriedades.

Andava apoiado em duas muletas, devido a uma antiga doença que o deixou entrevado, o que lhe dificultava imenso a locomoção mas, mesmo assim, não se eximia a percorrer alguns quilómetros para ir vigiar a vinha ao Barral, ou participar das esfolhadas, ou verificar como decorriam os trabalhos sazonais em que se procedia às sementeiras e às colheitas.

Alguém o convenceu a adquirir um triciclo para se locomover mas a experiência resultou num tremendo fracasso por várias razões, a mais importante relacionada com a falta de vias de comunicação adequadas. Além disso, precisava sempre da ajuda de várias pessoas para o ajudarem a sentar e a iniciar a marcha, apear e arrumar o veículo que ainda serviu para provocar algum espalhafato e alguns incidentes hilariantes.

Não tinha herdeiros legítimos e, quando a morte o surpreendeu sem estar a contar com isso, os seus bens foram disputados avidamente por parentes afastados, outros meeiros e pela igreja, liderada pelo célebre Padre Bernardo que não desperdiçava qualquer oportunidade para incrementar os bens da fábrica paroquial. A Ti Ana, que lhe sobreviveu por pouco tempo, nada pôde fazer para evitar a pilhagem desenfreada que recaiu sobre os bens do casal e mal assinou o testamento foi juntar-se ao marido.

A sua “biblioteca” detinha um espólio que julgo ser importante, pela cobiça que despertou no Padre que açambarcou tudo, ou quase tudo porque meu Pai foi contemplado com uma pequena enciclopédia - O Mundo na Mão - da qual eu absorvi muitos dos conhecimentos que serviram para orientar a minha vida.

Recebia periodicamente o catálogo das publicações de uma famosa e antiga editora do Porto, o que revela a importância que a cultura representava para ele.

Era rico mas a sua vida foi uma miséria e o final ainda foi mais triste…

Publicado por Eira-Velha às 08:50
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2 comentários:
De Emanuela a 23 de Abril de 2007 às 21:00
Olá. São fantásticos estes teus personagens e sempre me despertam tantos sentimentos...Parecem saídos dos contos antigos!
De Eira-Velha a 23 de Abril de 2007 às 22:48
São bem reais e animam as recordações da minha infância, às vezes um pouco desvanecidas.
Um beijo e obrigado mias esta visita.

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