Quinta-feira, 19 de Julho de 2007

Personagens da Minha Terra – VI

O Zé Loureda

 

Dizia um conterrâneo e amigo meu que Cavenca teria começado a ser povoado por marginais, pessoas fugidas à justiça que ali encontravam o ambiente propício para, tranquilamente, proverem a sua subsistência e se eximirem às malhas da lei.

Não há provas de que assim fosse mas não me espantaria que esta versão colhesse alguma consistência.

Em pequeno, muito pequeno, conheci naquela (minha) aldeia um indivíduo enigmático conhecido pelo Zé Loureda.

Não sei como ali foi parar mas algo intrigante ocorria com esse indivíduo.

Morava sozinho, apenas acompanhado por um corpulento cão de raça indefinida, na casa do Canal, cedida gratuitamente pelos proprietários. Não tinha qualquer actividade e todo o dia deambulava pelos campos sem qualquer destino ou objectivo definido, sempre fazendo uso de umas socas, espécie de tamancos especiais, abertos na parte de trás, coisa que não fazia parte dos nossos hábitos e causava alguma estupefacção, dizia-se que era para rapidamente se despojar daquele peso e poder fugir...

Era afável no trato, embora extremamente cauteloso e reservado, com uma entoação de voz “assediada”, típica da região noroeste de Viseu (sei-o agora), dizia chamar-se José Fonseca e ser natural de C(x)infães do Douro (onde ficaria isso?). Loureda advinha-lhe da localidade com o mesmo nome, próximo de Arcos de Valdevez, onde teria família e residência permanente.

Em Cavenca passava a maior parte do tempo, embora se ausentasse ciclicamente, talvez para Loureda.

Nunca incomodou os habitantes da pequena localidade que o acolheu nem estes o incomodaram ou se incomodaram com a sua presença. Acabou por contrair matrimónio com uma vizinha solteirona e encalhada, a Glória do Pinto, com quem estabeleceu uma relação nem sempre muito amistosa, a avaliar pelas mazelas mal disfarçadas que esta de vez em quando apresentava.

E beneficiou da solidariedade popular sempre que as autoridades o procuravam naquele fim do mundo. Mais do que uma vez observei a presença de patrulhas da GNR cujos agentes diligenciavam localizar aquele homem enigmático mas sem resultado.

Numa ocasião falou-se que vinha uma força de Monção para o prender. Dizia-se que traziam armas sofisticadas e grilhões para prender o fugitivo, que desta vez não escapava. Então, escondi-me estrategicamente por trás de um bardo, numa propriedade que ladeava o caminho que conduzia à casa onde morava o foragido, para observar o movimento da patrulha mas a informação correu célere e a tempo do Zé “dar de frosque” ou “às de vila diogo”, como dizia meu Pai, não sei a que propósito mas que significava o mesmo. A operação abortou mais uma vez e eu fiquei a saber que nem tudo que se dizia correspondia à verdade. Vi, isso sim, dois carrancudos agentes cinzentos e cansados, de “mauser” às costas, como de costume, no cumprimento de mais uma missão que só não teve êxito por causa da fuga de informação que implicou a deslocação de um estafado mensageiro, por caminhos só conhecidos da população local, que conseguiu chegar muito antes da patrulha.

Anos mais tarde, talvez por prescrição do crime ou da pena, voltou definitivamente para Loureda…

Publicado por Eira-Velha às 10:12
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2 comentários:
De Ventor a 22 de Julho de 2007 às 14:24
Pois! Podemos concluir que já nessa altura havia fugas ao segredo de Justiça. Neste caso, a fuga seria da própria GNR! Mas dá que pensar como a informação, nesse tempo, conseguia chegar primeiro!
De Eira-Velha a 22 de Julho de 2007 às 15:14
Sinceramente acho que não, a informação não partiria das autoridades policiais mas sim de outras fontes. Naquele tempo havia regedores, padres, presidentes das juntas e outras "pessoas de bem", os "bons", como alguém se auto-intitulou e me tentou convencer anos mais tarde, gente que constituia, juntamente com as autoridades oficiais, uma extensa rede de suporte do regime. Muitos deles faziam "jogo duplo", ou triplo, conforme as conveniências...
Teria sido por aí que o tal sigilo "furou"...

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