Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2004

A Belina

Chamavam-lhe a Belina, seria Avelina ou Umbelina, e era uma velha feia e má, sempre vestida de negro, com o rosto indecifrável encoberto sob o negro lenço, mas cheia de carisma.

Dela se dizia que, em tempo de grave crise económica e do racionamento dos bens essenciais, cultivava e curava tabaco na sua horta para autoconsumo, desafiando as autoridades fiscais que vasculhavam tudo à procura de excedentes agrícolas e também para combater a fraude e a evasão fiscal.

Contava-se também que, mais nova, comercializava peixe, geralmente salgado, que era a única forma de fazer chegar o produto às aldeias do interior em condições de ser consumido. Escarranchada em cima de um pequeno e robusto jerico, fazia o percurso até à sede da freguesia onde se ia abastecer ao "mula", designação por que era conhecido o camião de transporte de peixe, e regressava ao lugar onde assinalava a chegada com um vigoroso toque de búzio, que ressoava por montes e vales até se extinguir no infinito.

Quando eu a conheci, velha e alquebrada, vigiava os porcos que foçavam pelas bordas dos caminhos e iam espojar-se na lama dos charcos, junto às nascentes de Salgueirão ou, então, sentada nas graníticas escaleiras da sua residência, apanhava sol e deitava comida às galinhas.

Por vezes, nós, os garotos, imitando o seu trémulo vozeirão, espicaçávamos o seu mau génio, cuja reacção demonstrava bem a têmpera da velha que, em vão, corria ameaçadora atrás de nós, de pau em riste.

Por fim acamou e era certo que se aproximava o dia de prestar contas ao Criador. Havia já alguns dias que não se esperava outra coisa que não fosse o desenlace fatal, com a calma e a resignação de quem tem a certeza que, mais tarde os mais cedo, a todos chega a vez.

Naquele dia, pouco depois do meio-dia, o meu irmão Zé chegou a casa, depois de ter levado o gado para o pasto nas encostas da Calçadinha, e contou, admirado, que ao passar junto da casa da Belina, viu a velha sentada nas escadas a alimentar as galinhas que se amontoavam à sua volta a debicar os grãos de milho que lhe caíam das esqueléticas mãos.

Minha mãe, bem sabendo que tudo não passara de uma visão do outro mundo, disse baixinho e imperativamente: "Cala-te que ela está a morrer!"...

Nessa mesma tarde, a ténue chama de vida que ainda alimentava o frágil canastro da Belina extinguiu-se para sempre.

Coimbra, 6 de Novembro de 2001

Publicado por Eira-Velha às 22:17
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